Mestre Lagoa Henriques

 

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"O grande problema do nosso tempo é conciliar a técnica com a ética, a estética e a poética"

 

 

 

 

Abrir Janelas

 
 

José Saramago

 
 

Lembro-me duma oficina de escultor. Lembro-me de gessos, de bronzes, de desenhos, de panos molhados envolvendo o barro, lembro-me de pombos, de fósseis, de vidros, de conchas, lembro-me do retrato duma senhora de cabelo branco, lembro-me de raízes, de violas, de pedras e plantas vivas, lembro-me de vozes e de risos. Lembro-me, também, duma janela. Que dava para o rio, ali a poucos metros. Era uma abertura estreita, mais fresta que janela, sobre cuja existência naquele sítio nunca interroguei o escultor, mas que hoje, passados tantos anos e graças à clarividência que o tempo dá, não tenho dúvidas ter sido obra sua, para quem quisesse isolar-se a olhar o mundo, que não é raro, mesmo no meio de amigos, apetecer o silêncio, e a solidão. Por esse gosto e necessidade me afastara eu deles naquela noite, porém sem mundo visível, porque lá fora a escuridão era quase completa, apenas umas luzes vagas, como lanternas, na outra margem. Mas o que me atraía e retinha por trás das vidraças era justamente o silêncio exterior, tão denso que me isolava do vago rumor da oficina. Sentia-me a pairar num momento e num espaço porventura doutro universo, mas nada justificaria a estranha impressão se ela não fosse, afinal, uma premonição do que aconteceu depois. De repente, quase ao rés da muralha, passou defronte da janela um barco iluminado, em silêncio passou e desapareceu, deixando-me a tremer de comoção, como se tivesse podido perceber, por um instante, a angústia que há na beleza, se se atingiu o limite do inefável. Devo a Lagoa Henriques algumas alegrias, mas talvez nenhuma tão grande como esta, criada por uma ciência sensível que o levou a abrir, naquele lugar, aquela janela. Que é o que tem feito na vida: abrir janelas.

José Saramago, «Abrir Janelas» in O Risco Inadiável, o Caderno de Desenho, Jubileu do Professor Lagoa Henriques, Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, 1988.