Mestre Lagoa Henriques

 

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"O grande problema do nosso tempo é conciliar a técnica com a ética, a estética e a poética"

 

 

Lagoa Henriques

Delfim Sardo

O percurso de Lagoa Henriques tem como denominador comum uma procura constante da elegância em formulações escultóricas e no campo do desenho que derivam de uma sólida formação clássica. De facto, o percurso de Lagoa Henriques possui uma qualidade de abrangência humanista que deriva, sem dúvida, da permanência em Itália entre 1955 e 1958, como Bolseiro do Instituto de Alta Cultura. Esse período, que coincidiu com o fim dos seus estudos na Escola de Belas-Artes do Porto (que concluiu em 1954 tendo sido aluno de Barata Feio), foi também o do contacto com a moder­nidade da arte europeia do pós-guerra, tendo sido orientado por Marino Marini. Essa influência, central no desenvolvi­mento da sua escultura posterior, representa o cruzamento entre a herança de um sentido compositivo de raiz clássica, a que não é estranho o sentido estético herdeiro do humanismo existencialista que enformaria grande parte da sua produção, bem como um sentido de massividade e do peso do corpo na figuração escultórica que sempre desenvolveu. Embora a sua obra seja prolixa e marcada pela colaboração fre­quente com arquitectos, quer em projectos de intervenções escultóricas no espaço público, quer como intervenção em projectos arquitectónicos edificados, duas obras são absoluta­mente marcantes para o seu percurso: As Varinas, bronze apresentado em 1957 na 1a Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkían, e O Segredo, peça escultórica da década de setenta, actualmente instalada no Alto do Parque Eduardo VII, em Lisboa. Em ambos os casos as figuras femininas, de uma corporalidade assente sobre um equilíbrio compositivo rigoroso encarnam uma visão politicamente empenhada na representação de figuras do trabalho, simultaneamente clássicas e evocativas de um realismo poético. É clara, nessas esculturas, a importância do desenho, quase sendo possível reconhecer o traço e a sua articulação espacial. De facto, a obra de Lagoa Henriques, não só se divide tam­bém pela prática do desenho, como pela sua didáctica, podendo afirmar-se sem hesitação que o desenho é o modelo de prática que estrutura o seu processo criativo. Assim, no campo do desenho e pela sua inerente heterodoxia, é reconhecível uma maior liberdade, em oscilações que tanto se centram sobre a representação da figura como sobre o plano da composição abstracta. A este propósito é inegável a importância atribuída ao desenho enquanto processo quoti­diano como diário gráfico, trabalhado também enquanto processo pedagógico.

Com uma longa carreira académica — tomou posse como Professor Efectivo de Desenho na Escola do Porto em 1963, permanecendo aí até 1966, quando pediu transferência para a Escola de Lisboa —, Lagoa Henriques foi o responsável pela criação da Disciplina de Comunicação Visual, em 1974, na qual a prática do desenho volta a possuir uma importância primordial, quer como gramática visual, quer como expres­sividade individual.

O campo da pedagogia e do ensino artístico será, então, inseparável da sua forma de entender o processo criativo e o exercício do olhar, bem como da ideia de construção de uma poética própria, adensada como projecto ao longo dos anos. Registe-se que a destruição da sua obra por um incêndio em 1972 representa um enorme hiato para a compreensão cabal do seu percurso, sendo hoje acessíveis obras maioritaria­mente posteriores, ou trabalhos de arte em espaços públicos.

 

Delfim Sardo, «Lagoa Henriques», in Aula Extra, Lisboa, Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, 2006, pp. 30-31.