Mestre Lagoa Henriques

 

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"O grande problema do nosso tempo é conciliar a técnica com a ética, a estética e a poética"

 

 

«…FOI ELE … QUE INTRODUZIU … O CONCEITO SUBVERSIVO DE POLUIÇÃO VISUAL, A PRIMEIRA DAS POLUIÇÕES E EM GERAL A QUE É MENOS COMBATIDA…» Texto de Filipe Rocha da Silva de 12 de Março de 1981 para o catálogo da Exposição de LAGOA HENRIQUES no Museu de Arte Sacra do Funchal com o apoio do Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira, da Fundação Calouste Gulbenkian e da Direcção Regional dos Assuntos Culturais da Madeira:

 

 

LAGOA HENRIQUES

 

 

Como falar do "cidadão do mundo" Lagoa Henriques e da sua obra, que não obedece a restrições temáticas, formais, ou mesmo geo-políticas? (Se obedecesse seria fácil falar delas...)

Não adianta vir com o paleio dos críticos de arte (prefiro criticar a ignorância), falar em-ismos e em-istas, ou subjectivar falsamente o assunto, tornar-me hermético para que possam dizer: "Deve ser inteligente, o que escreve, porque não o percebemos." O assunto não me permite disfarces. Terei de ser directo, sob pena de não chegar lá.

Aprendi a conhecê-lo sob o manto pouco diáfano de uma instituição escolar que não podemos deixar de contestar. Não é do professor catedrático (vide Arteopinião 13) nem do Presidente do Conselho Científico da ESBAL que te quero falar, amigo da Madeira. Deixemos de fora a pesada instituição escolar, e todos os vícios que ela conseguiu acumular. É do Mestre! Do Mestre num sentido medieval e fraterno. Medieval não no obscurantismo de regresso a uma qualquer escolástica, mas na direcção em que todas as Escolas de Belas Artes devem caminhar: o de nos aprendermos a orientar com um irmão mais velho na profissão, que já desbravou antes de nós muitos dos escolhos e imprecisões que um percurso de descobertas no terreno das artes nos apresenta no início. Escolhos agravados com as tempestades que a sociedade nos apresenta e, ainda mais perigosos, os falsos portos de abrigo que nos parecem proteger das agressões mas que ao fim e ao cabo nos fazem afundar em águas pantanosas e estagnadas. O Mestre Lagoa Henriques encarnou para mim, ao longo de vários anos de ESBAL (que foram de luta) a seguinte sequência: aprender, aprender e em seguida aprender. Com os alunos, com os professores, com as pessoas que se dignam voltar para nós o olhar de fora da Instituição Escolar, com qualquer pormenor insignificante da natureza ou da sociedade, uma pequena flor ou um olhar que com o nosso se cruza nas ruas estreitas do Funchal. Essa abertura fundamental, primordial — que é a das crianças. Mas atenção! É à custa da abertura das crianças que as tornamos adultas. Enfim, o que interessa é criar um conceito totalmente novo de quotidiano. Porque não é útil numas Belas Artes apresentar às pessoas algumas sessões ou momentos de reflexão e estudo mais ou menos elevadas, para logo se afogarem na entrada da Rua da Carreira nas mais que legítimas preocupações de um quotidiano sempre (para os mais sensíveis e inteligentes) insatisfatório, fonte de preocupação e dúvidas. Interessa-nos descobrir nas pessoas um novo quotidiano, em que a arte se funda com a vida. É isso que o Mestre nos diz: encontrar no quotidiano, no Nosso, uma nova dimensão estética, reparar pela primeira vez naquilo que sempre esteve lá, no nosso caminho visual. E que essa visão não seja uma viagem irresponsável e alucinada, mas que vamos vivendo de deslumbramento em deslumbramento até que os nossos olhos se cerrem de uma vez por todas.

E não é uma viagem pacifista que ele nos propõe, num ambiente em que os atentados a esse mesmo ambiente são tantos quantas as pessoas. Quando falar de ecologia ou de património se tornou o "hobby" até dos maiores violadores desse mesmo equilíbrio, em que parece que se fala das coisas para não se fazerem as coisas, mais como sublimação terapêutica no campo da psiquiatria social do que como preparação de uma acção mais justa. Foi ele também que introduziu na nossa cabeça impreparada e distraída de alunos do 1° ano, muitas vezes a sonhar com o "canudo" e com mais alguns contos de reis (tão necessários) ao fim do mês, sub-repticiamente, o conceito subversivo de Poluição Visual, a primeira das poluições e em geral a que é menos combatida. Ele não é neutro, não pode ser neutro. Está militantemente empenhado numa melhor harmonia visual do mundo, agora que o Papa e as suas encíclicas nos falam de uma nova (e mais justa) ordem económica internacional. Nesse sentido caminham todas as suas intervenções.

Em que medida a obra escultórica e gráfica de Lagoa Henriques corresponde ao homem e ao professor. É difícil dizê-lo.

Não re-escrevamos o que já está escrito; citemos antes o Rocha de Sousa de um catálogo de uma exposição do Lagoa de 1977:

"E afinal os desenhos? O que são os desenhos? Pois os desenhos são o reflexo mais ou menos directo, mais ou menos indirecto, de tudo isso, desse mundo de memórias e de presenças sempre a vibrar. Trabalhando quase invariavelmente com o carvão, o pastel, o lápis e o giz, Lagoa Henriques agarra o suporte de papel com o traço sensível, sintético e por vezes vertiginoso com que regista figuras típicas do meio próximo, rapazes que cavalgam motas cromadas, marinheiros anónimos, raparigas que são o trivial e o mito, amigos que trazem algumas histórias de espanto no rosto instantâneo. Por outro lado, e encontrando consistência plástica para a qualidade da sua solidão, Lagoa Henriques abre a preto, ou a cores suaves, atmosferas líricas na superfície plana — paisagens desabitadas, cenas wagnerianas, um exercício que se radica num verso de Fernando Pessoa ou no ritmo diverso de uma melodia que enche electricamente o cenário do atelier. Mas não é só isso, porque há também as plantas, há também as flores, há também as raízes; e os restos de máquinas velhas e um certo pombo pitoresco habituado humanamente à casa. Então aparecem paralelamente desenhos que, embora vinculados à mesma técnica e ao mesmo estilo, são repertórios sensíveis da representação desses elementos todos — o ritmo das folhas e a rigidez dos metais oxidados, as raízes dramatizando a forma plástica, o pombo 'fotografado' em vários instantes da sua irrequietude, nos traços súbitos de uma evidência que, apesar de curta, se consolida no registo surpreendente que permanece". Assinado, com a devida vénia, Rocha de Sousa.

É mais uma vez uma questão de quotidiano. Do que não se vive não se pode falar com sinceridade, quanto mais representar através de formas menos directas e mais exigentes, como seja o uso dos diversos elementos da forma plástica. E o Lagoa vive o que desenha, profundamente. A expressão artística é, para ele, uma exigência, uma necessidade de sobrevivência. E soube prová-lo nos momentos de mais verdade, quando viveu a paredes-meias com a catástrofe, sob a forma de um incêndio que lhe destruiu o atelier e grande parte do seu mundo. Hoje, esse mundo está de pé outra vez, e no novo atelier, os arquivos povoam-se de novo de registos e desenhos, os cavaletes de volumes, numa vitalidade sempre renovada.

Muitos conhecem o Lagoa Henriques através da sua actividade como construtor de monumentos públicos. Ao consultarmos o seu curriculum verificamos, por exemplo, que assina um motivo escultório para a Caixa de Previdência do Funchal. Os monumentos têm em geral um grande "estatismo", no sentido em que são estáticos e em que são de Estado. Alguns dos monumentos do Lagoa não fogem à regra, embora tenham uma dignidade, uma humanidade, que os colocam num polo oposto àquele, por exemplo, dos Simões Bolívar que aparecem um pouco por toda a terra portuguesa. No entanto noutros, nos mais recentes, tudo muda, tudo se altera, aparecem dois momentos novos, e bem-vindos: A intimidade e a dinâmica. Intimidade do artista com a obra, expressa através do gesto, e intimidade do transeunte, através da criação de uma série de "espaços pessoais" de observação. Dinâmica, através da assimetria e do movimento. São os monumentos do futuro, e os monumentos ao futuro. Que viva Camões!

E esse olhar atento do Lagoa viajou até à Madeira. Ele disse-me, quando o visitei no atelier para combinar os pormenores da exposição: "Já não me interessa fazer exposições tradicionais". "Ó que me interessa é estimular novas formas de leitura do mundo".

E é isso que se tenta fazer, no Funchal de 1981. Aqui chegado, eis que Lagoa Henriques deita um olhar atento, presta a sua homenagem, a todos os madeirenses que querem desenhar, riscar, exprimir-se... É o estúdio experimental de desenho, a mágica e misteriosa viagem. Lança outro olhar sobre a arte popular, construção anónima do povo que realmente desbravou e tornou mais bela a Madeira. É o importantíssimo trabalho de recolha de António Rodrigues. Repara, por outro lado, no que são provavelmente os dois maiores escritores vivos nascidos na Madeira: António Aragão e Herberto Helder. Mais conhecidos em Lisboa que no Funchal. Quem ainda não os conhece?

Por isso Lagoa Henriques não é só Lagoa Henriques (há pessoas que se limitam ao corpo que têm). É uma mágica e misteriosa viagem pelo lado de dentro da Madeira, e pelo de nós mesmos. Lado de dentro que devemos procurar que seja cada vez mais também o de fora. A bem da libertação geral, e da nossa em particular.

Tenho dito e re-dito

 Filipe Rocha da Silva, Funchal, 12/3/1981