Mestre Lagoa Henriques  

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"O grande problema do nosso tempo é conciliar a técnica com a ética, a estética e a poética"

 

 

 

 

MESTRE LAGOA HENRIQUES

 

Ilídio Salteiro

 

 

 

Quando nos anos setenta ingressei no ensino superior artístico, como aluno fascinado pela possibilidade de iniciar uma existência baseada na plasticidade das matérias e na descoberta de cada uma das suas características mais específicas, com a intenção de construir coisas com capacidade para melhorar o mundo em permanente devir, conheci Lagoa Henriques, o Escultor e o Mestre. Era Professor de Desenho na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, hoje Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.

Desde então até hoje, tenho acompanhado Lagoa Henriques, umas vezes de longe e outras vezes de mais perto, verificando que ele tem preenchido a sua vida como se ela fosse coisa artística e servindo-se da linha e do barro como mediums estruturantes de toda a sua obra.

Um dia, numa das minhas primeiras aulas de Desenho de Modelo Vivo, Lagoa Henriques leu-nos, com a emoção de quem é ele próprio o narrador e cada uma das personagens, uma história de um pintor incumbido pelos monges de um mosteiro para pintar as paredes do refeitório. Esta história, contada na primeira pessoa, faz parte de um texto de Almada Negreiros intitulado Desenho e publicado na Ideia Nacional em 9 de Julho de 1927. Trata-se de uma história brilhante comungada naquele momento por todos os presentes, mas principalmente por aqueles que a descobriam pela primeira vez, como era o meu caso, no final de uma adolescência e no início de um percurso.

Obrigado Lagoa, pela aula de Desenho, pelos encomendadores monges, pelo mosteiro como o suporte original de todas as artes, pelo pintor fresquista nómada, pela cidade policroma, antiga ou moderna, tudo claramente conotado com Giotto, Assis ou Pádua ou, se a nossa imaginação o permitir, com Lisboa porque não!?

Era a primeira experiência da nossa contemporaneidade que começava a alicerçar-se e a distanciar-nos de estereótipos; e conseguiu ser uma experiência vivida com intensidades criativas e impulsos expressivos diferenciados, ao mesmo tempo que equacionava a natureza, através de exercícios de pôr e compor no espaço essencial destinado a todo o tipo de procuras, em que se tinha tornado o rectângulo branco da folha de papel Ingres esticada sobre o cavalete de cada um.

O neoclassicismo e o medievalismo nos finais dos anos setenta apareciam deste modo justapostos diante de uma assembleia de estudantes, como um sinal da pós-modernidade do seu tempo, ou seja, como o início da convivência com toda uma popularização dos sistemas eruditos do estar e do ser.

Neste âmbito Lagoa Henriques acumula, pelo menos em alguns, as figuras de Giotto, de Almada Negreiros e ainda de Fernando Pessoa, três individualidades que podem facilmente ser percebidas ou identificadas na sua personalidade e na sua obra.

A história do pintor com a tarefa de pintar o refeitório do mosteiro, narrada por Lagoa Henriques e escrita por Almada Negreiros, remete-nos inevitavelmente para os frescos que este pintou em Lisboa, nas Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha de Conde d’Óbidos. Este facto faz-nos sentir que os seus frescos foram concebidos para refeitórios, e que a metodologia utilizada pelo pintor medieval também foi a de Almada. Mas neste caso o refeitório pertencia a lugares de apoio a viagens, muitas delas sem retorno, como foram por exemplo as de muitos jovem portugueses durante os anos sessenta para o outro lado do mar.

A perpetuação de Fernando Pessoa no Chiado através de uma escultura de Lagoa Henriques em bronze em frente do Café Brasileira, de maneira nenhuma se alheia do retrato de Fernando Pessoa que Almada Negreiros pintou. Aquela escultura corresponde a uma obra singularmente rara, numa cidade muito conservadora, pouco arrojada, sem uma estrutura conceptual capaz de definir os projectos artísticos que lhe fazem falta e perfeitamente desatenta ao que se passa na urbe. Basta reparar-se que esta peça, juntamente com a intervenção de Jorge Vieira na Praça do Município constituem algumas das muito poucas intervenções de arte contemporânea que Lisboa tem, se excluirmos algumas outras, poucas também, no Parque das Nações na zona oriental da cidade.

Desconheço se alguma vez Giotto, Pessoa, Almada e Lagoa se encontraram!

Certamente que com o primeiro não, por razões óbvias, mas com os três últimos talvez sim, em enquadramentos socialmente muito diferenciados.

Mas a comunicação e a convivência são mais difícil entre os homens do que entre as suas obras! A verdade é que pouco importa se esses encontros se verificaram ou não, uma vez que a evidencia das formas, das ideias e das soluções é mais esclarecedora. No Chiado, no centro da cidade, deparáramos com a obra que contém dentro de si as referências de cada um deles. Homens diferentes, obras e saberes diferentes, mas tudo sintetizado numa única peça de bronze que não é mais do que a representação de um homem sentado a uma mesa, servindo-se como reflexo natural à consciência social de um colectivo: uma escultura tornada ícone, tornada dádiva.

Lagoa Henriques vive o universo da arte que cria, à sua maneira, rodeado de um séquito de pessoas, de animais e de uma imensidade de “objectos encontrados”. Estes mais não são do que esboços de esculturas que não vale a pena fazer porque a natureza já se encarregou desse serviço, libertando o escultor para a tarefa de as contemplar e de se maravilhar com elas.

Homens estátuas, animais espectáculo e objectos relíquias são os elementos estruturantes que vivem e se partilham no seu espaço de trabalho. Tudo isto se encontra integrado entre a intimidade da residência e da oficina, não se sabendo onde começa uma e acaba a outra. Não se trata de uma fábrica de produções sem série, em que muitas oficinas produtoras de arte contemporânea se transformaram, mas sim num espaço sagrado, destinado a uma vivência quotidiana em constantes liturgias de gestos, de palavras e de obras.

Neste universo, os poemas de Fernando Pessoa, como de muitos outros poetas, constituem-se como sendo o Livro, que, mais do que lido, é partilhado. Convive-se com ele como se de linhas, cores e matérias moldáveis se tratasse.

Esta oficina, que tenho o prazer de conhecer, é acima de tudo uma Escultura vista por dentro em constante actividade, que vem instalando dentro de si os universos, as sensibilidades e os testemunhos do pensamento do Mestre Lagoa Henriques.

Ilídio Salteiro, Abril 2007