Mestre Lagoa Henriques

 

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"O grande problema do nosso tempo é conciliar a técnica com a ética, a estética e a poética"

 

 

 

JOSÉ ESCADA UMA PINTURA M(O)URAL

Se me perguntarem há quanto tempo morreu o José Escada não sei responder. Podia ter morrido ontem, há dois meses, há cinco anos... A morte de um amigo e de um artista, leva-nos sempre a reconsiderar qualquer coisa que é talvez o mais importante na curta viagem que todos vivemos: o tempo. Há uma palavra que tem um fundamento muito forte, uma raiz muito profunda na existência de todos nós, uma palavra terrível e sagrada, que está na base da continuidade da nossa existência: amor.

O José Escada era um apaixonado do amor. Mas há vários tipos de paixões: há aquelas que apenas existem através do sentimento e da sensibilidade e há outras que se enraízam no entendimento do mundo, numa inteligência subtil que se desenvolve em todas as direcções. Quem conheceu o Escada sabia como era inteligente e amante, como procurava de uma forma ingénua agarrar e entender tudo o que os homens lhe deixaram numa herança sem dimensões e sem molduras. Lembro-me que muito dificilmente emoldurava um desenho ou um quadro. As molduras só aparecem, com a sua expressão pesada e barroca, em determinados momentos da história dos homens. Quase que nos apetece perguntar porque é que isso acontece. Os grandes momentos da pintura não tiveram "molduras", viviam nas paredes, nos muros abertos a todos os homens.

Ontem, acidentalmente entrei numa Galeria, remexendo numa pasta de gravuras e serigrafias, encontrei duas gravuras de José Escada. Perguntei o preço. Desde que ele abandonou o nosso convívio, essas gravuras que se vendiam a dois contos, dois contos e quinhentos, atingiam já dez e quinze contos. Uma subida rápida! De resto, na exposição há pouco realizada na.SNBA era necessário fazer um seguro para cada obra ("um seguro de vida", vida feita de morte... morte do artista, que dificilmente viveu). Quadros que na sua última exposição tinham sido vendidos por trinta ou quarenta contos atingiam agora a verba de cinquenta ou cem mil escudos. Falei muitas vezes com o Escada sobre estes problemas. Ele às vezes aparecia em momentos difíceis, "numa má", como agora se diz, porque todos os artistas também, como as outras pessoas, precisam de comer e de ter um "bolsinho" que não é propriamente o da Rainha D. Maria II que ofereceu uma viagem a Domingos António Sequeira do seu bolsinho uma bolsa. O dinheiro é necessário para auxiliar a família, para nos auxiliarmos a nós próprios, comprarmos livros, espectáculos, e sermos simpáticos com as pessoas que nos estimam. O José Escada tinha dificuldade em ter uma mão cheia de moedas que lhe desse uma certa dignidade na existência. Por isso não posso nem quero deixar de falar destes problemas. O Escada queria simplesmente viver. Numa entrevista sobre a condição do artista, para a Arteopinião dizia-nos: "Vivo num quartinho, tenho dois cães e estou a pintar um auto-retrato com os dois. Ora, estou muito aflito porque quase não tenho distância para ver o quadro. E aquilo que me vão pagar pelo quadro não me chega para dar de comer aos cães".

Foi sempre um homem livre, antes e depois de tudo o que aconteceu neste país, e digo livre porque nunca se escravizou a modas e convenções, amou sempre intensamente o que o rodeava, procurou sempre compreender o mundo dos outros. Daí as suas respostas, nessa linguagem que é o desenho ou a pintura, a colagem ou o recorte, tão autênticas, tão directas, que ainda hoje nos impressionam. Sobretudo àqueles que as queiram entender, e que não se recusem a compreendê-las, como certos críticos da nossa praça. Esses, com o desejo de criar rótulos e de formar escolas, diziam: "O Escada? É uma fase má... está em decadência..."

O que importa reafirmar é o seu deslumbramento pelas árvores do jardim da torre de Belém, o céu, as nuvens, os barcos, os amigos. Era um caçador de beleza, preocupava-o muito que essa beleza pudesse ser entendida por todos. Filho de um cabeleireiro do bairro de Santo Amaro, a sua mãe trabalhou no Ramiro Leão, como costureira.

José Escada e Domingos António Sequeira por vezes estão próximos. Sequeira nasceu em Belém, filho de gente humilde, de um pescador do Algarve, que emigra para Lisboa. Nos dois uma infância deslumbrada e difícil. Sequeira segue para Roma à custa do "bolsinho da Rainha", Escada, quando vai para Paris, tem mais dificuldades. Depois uma bolsa da Fundação Gulbenkian. Vive uma grande fatia da sua existência em França. Falará sempre desse período com grande nostalgia. Paris, com todas as limitações que possa ter, é um Museu Vivo, é o peso dos séculos. A arquitectura, os museus, as exposições, os espectáculos, uma boémia que encantava o pintor. Depois o mundo de objectos a que ele estava preso numa recordação nostálgica, um maço de Gitanes, quando os podia comprar um dos seus cães será Gitanes por outro lado, os livros que ele conservava amorosamente no seu pequeno quarto-atelier e quando em quando, se possível, um bom vinho francês. De resto, esse amor às coisas com que nós vivemos, essa convivência, esse conversar sobre o que se fez ou o que se poderá fazer é importante. Para o Zé Escada, com o José Escada, certas palavras tinham uma dimensão diferente, uma responsabilidade maior: vida, arte, ternura, paixão, entendimento. Amava a música, o seu disco preferido: "A Truta" de Schubert. Ainda no ano que passou, no dia do seu aniversário, ele veio jantar ao meu atelier, com dois ou três amigos, e a um certo momento pediu-me uma vez mais para ouvir essa música. A música tem para o Escada a mesma estrutura de ritmos, o mesmo claro-escuro, a mesma graduação de valores, que a pintura ou o desenho. José Escada não tinha paciência para certas cerimónias, "vernissages", convívios convencionais, jogos de sociedade. Defensor da condição humana, uma condição humana que ele exigia que fosse tão pura, tão directa e tão espontânea, como o comportamento dos seus cães, o Stroff e o Gitanes.

Gostava de cinema, gostava muito de bom teatro. Respeitava os seus amigos; nas suas fracas possibilidades era capaz de despir a camisa para a dar ao próximo.

Vivia num pequeno quarto em casa de sua mãe na rua Aliança Operária, ao pé do Jardim de Santo Amaro, que ele tanto amava, num quarto-atelier povoado dos seus livros, dos seus desenhos, dos seus quadros, de pequenas recordações, papéis escritos, convites de exposições, folhas de catálogo, recortes de jornais, numa atmosfera íntima e fascinante. Saía muitas vezes, com o pretexto de passear os cães, mas fundamentalmente para entrar na vida da cidade. E era nessa aventura permanente, nessa viagem, que ele ia descobrindo os assuntos, os referentes, da sua pintura. Ia colher memórias, que depois floriam nas suas telas e nos seus desenhos rápidos ou dolorosos. Fundamentalmente, na pintura do Zé Escada tudo são formas de alegria deslumbrada.

Gostaria de afirmar em conclusão, que a sua pintura foi sempre uma pintura m(o)ural. Mural porque se podia inscrever em qualquer muro ou parede, virada para o exterior e para a inteligência aberta dos homens, moral porque se preocupava com esses mesmos homens, e procurava entregar-lhes o pouco que tinha num abraço aberto com as mãos bem estendidas, acreditando ainda numa recuperação possível.

Lagoa Henriques*, «José Escada - uma pintura m(o)ural», in Arteopinião, nº 13, Janeiro / Fevereiro, 1981.

* Professor catedrático da ESBAL